quarta-feira, 9 de abril de 2014

Qual o papel da universidade?

Não há dúvidas de que o papel da universidade é criar e difundir o conhecimento.  É este o papel social da universidade.  Nada mais.  Se a universidade não sabe utilizar eficientemente os preciosos recursos que a sociedade a ela confiou para criar e difundir o conhecimento, então ela está descumprindo o contrato social que é a sua razão de ser.

Dentre todos os recursos, o mais precioso deles é sem dúvida o tempo.   É um recurso não-renovável (pelo que sabemos atualmente da Física).  Quando o tempo dos docentes é utilizado com atividades de manutenção interna, temos uma patente violação de suas atividades primárias que, por definição, friso com grande ênfase, não são outras além de criar e difundir o conhecimento.

Em particular, comissões como informática, patrimônio, controle de qualidade, entre muitas outras, não têm qualquer ligação direta com a criação e difusão do conhecimento.  São atividades de manutenção interna.  Uma única reunião de 2 horas com 10 docentes custa à sociedade:

    10 docentes *  9185 reais *  2 horas/(25 dias * 8 horas)  = 918,50 reais

Se forem 3 horas, serão 1377,75 reais.  E sendo o custo real ainda maior, pois estou usando o salário base de um doutor recém contratado e não estou incluindo encargos sociais e o salário da secretária.  Além disso, uma reunião formal tende a gerar inúmeras pequenas reuniões informais, além de pulverizar o tempo livre que os docentes dispõe para pesquisa.  Pois neste caso a aritmética é:

   10 intervalos de 15 minutos cada = 0 minuto de atividade concentrada

Sugestão prática: abolir comissões

Devemos abolir todas as comissões assessoras impiedosamente ou, para usar uma expressão em inglês, cold turkey.  Façamos isto por 6 meses;  se após este período não houver um clamor de pelo menos um terço do corpo docente pela reativação da comissão, pode ter certeza que as funções desta comissão podem muito bem ser absorvidas por outros órgãos do instituto.

Além disso, as raríssimas exceções, comissões que de fato se mostrarem necessárias (algo como quimioterapia, por completa falta de melhor tratamento e apenas em caso de risco de morte), devem ser criadas com prazo de validade, digamos de 1 ano, após o qual a comissão é automaticamente extinta e deve-se reavaliar o real impacto que o trabalho da comissão teve em alcançar o seu propósito, a fim de se reconsiderar sua reativação (com prazo de validade, como sempre).   Aqui deve-se ter um cuidado: muitas vezes, docentes dedicados que doaram o seu precioso tempo à comissão e que de fato trabalharam para o seu sucesso não podem ser culpabilizados (ainda que informalmente) se a comissão vier a ser extinta indefinidamente.  São dois os motivos: o primeiro, a comissão pode não ser o melhor instrumento para resolver o problema, logo é melhor tentar outra alternativa; e segundo, os docentes podem não ter o conhecimento necessário para utilizar efetivamente este instrumento (afinal de contas, somos professores e pesquisadores, não administradores!).   Neste último caso, deve-se procurar um instrumento que utilize nossas habilidades e pontos fortes.  Por exemplo, não seria mais interessante utilizar nossos conhecimentos de otimização e computação para tornar um processo mais eficiente?